Documento
Metadados
Descrição
Com o desaparecimento da professora Maria Thetis Nunes, a sociedade sergipana perdeu uma desbravadora e uma das maiores expressões de sua intelectualidade. Filha de família de poucos recursos e órfã do pai, José Joaquim Nunes, em plena infância, desde cedo assumiu uma autonomia de ação admirável.
Aos 11 anos deixou sua cidade natal, Itabaiana (SE), para continuar seus estudos em Aracaju e, a partir dos exemplos de sua mãe, Anita Barreto, e de sua avó, Emília, foi-se revelando uma jovem intrépida. Como um ser obstinado, enfrentou preconceitos, venceu obstáculos, mas recebeu também o estímulo de parentes e de alguns mestres que se tornariam inesquecíveis, como o professor Arthur Fortes.
Ao concluir o curso secundário no Atheneu Sergipense. foi para Bahia, onde se graduou em História e Geografia. De volta a Sergipe, prestou concurso, em 1945. para o mesmo colégio em que havia estudado, apresentando a tese Os Árabes, sua influência na civilização ocidental e, como a única mulher da congregação do estabelecimento, iniciou seu percurso de professora estudiosa, séria e responsável.
Enquanto ocupava a direção do Colégio Atheneu (1951/1954), deu aulas na Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe, que ajudou a criar. Em 1956, foi designada pelo governo Leandro Maciel para representar o Estado no curso do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), que congregava uma elite de intelectuais dedicada a estudar a realidade brasileira.
No Rio de Janeiro, ampliou sua formação de marxista mesclada com a tendência nacionalista. Aproximou-se de Nelson Werneck Sodré, Cândido Mendes e tantos outros, tendo oportunidade de escrever ensaio sobre a ideologia nacionalista dos pensadores sergipanos Manoel Bomfim e Silvio Romero.
Em face do seu talento e dos relacionamentos desenvolvidos em 1961, foi para a Argentina como adida cultural dirigir o Centro de Estudos Brasileiros na província de Rosário, administrando a entidade e lecionando disciplinas relacionadas à História do Brasil.
Com a mudança política no nosso país, em 1965 retornou a Sergipe e, com sua formação humanística, com sua experiência e sua postura republicana, dedicou-se às atividades docentes e propiciou ao seu Estado uma inestimável contribuição cultural. Retomou a cátedra no Ateneu, inseriu-se no meio intelectual com uma participação destacada. Participou das discussões em torno da criação da Universidade Federal de Sergipe e afirmou-se como uma das fundadoras de realce.
Na nova instituição, ensinou História do Brasil, História Contemporânea, Cultura Brasileira, entre outras disciplinas e, com sabedoria. senso de responsabilidade e postura ética marcou gerações de alunos. Além das aulas, participou de todos os conselhos superiores da IFS (Ensino e Pesquisa, Universitário e Diretor). Como decana, exerceu o cargo de Reitora em alguns períodos no curso de 1976 e 1977. Ademais, integrou os Conselhos Estaduais de Educação (1970/1981) e de Cultura (1982/1994) do Estado de Sergipe.
Não obstante a diversidade de suas atuações, anualmente empreendia pelo menos uma viagem ao exterior, ilustrando seus conhecimentos de História e Geografia, do Ocidente ao Oriente, tendo conhecido quase todos os continentes.
Sempre ativa, participante e dotada de espírito público, em 20.11.1972 assumiu a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, que passava por uma fase de dificuldades. Aí permaneceu por 31 anos empenhando-se pela melhoria de suas condições, tendo conseguido empreender importantes reformas, razão por que, ao deixá-lo, foi agraciada com o título de Presidente de Honra da entidade. Ingressou na Academia Sergipana de Letras e foi reconhecida com elevadas condecorações de mérito cultural por parte da Prefeitura de Aracaju, do Governo do Estado de Sergipe, pela Academia Sergipana cie Letras e pela Universidade Federal de Sergipe, que lhe concedeu os títulos de Professora Emérita e de Doutor Honoris Causa, Coroando esse reconhecimento, foi escolhida pela sociedade como a mulher do século do Estado.
Se, na esfera do ensino, foi grande o seu contributo para uma educação orientada para ampliação da cidadania dentro dos parâmetros republicanos, não menos importante revelou-se como historiadora, voltada para a construção da identidade do sergipano.
Depois de ensaios sobre a legislação do ensino e a construção de nossa nacionalidade, após sua aposentadoria em 1993, intensificou as pesquisas e ampliou os estudos de História de Sergipe de forma sistemática e sequencial da Colónia até o início da República, produzindo a obra mais abrangente e mais Importante de historiografia sergipana. Seu projeto era concluir seu último livro chegando até 1930. Nele trabalhava quando a morte chegou, apesar disso, sua bibliografia é o maior testemunho de sua grandiosidade.
Além dos numerosos artigos em revistas e jornais, publicou os seguintes livros ou opúsculos, alguns dos quais lhe valeram prêmios nacionais:
A Civilização Árabe, sua influência na civilização ocidental. Aracaju. 1945.
Ensino Secundário e Sociedade Brasileira. MEC ISEB. 1962.
Sergipe no Processo da Independência do Brasil. UFS. 1972.
Sílvio Romero e Manoel Bomfim: Pioneiros de uma Ideologia Nacional! UFS, 1976.
História de Sergipe a partir de 1820. Editora Cátedra / MEC, 1978.
Geografia, Antropologia e História em José Américo. João Pessoa, 1982 (Manuel Correia de Andrade, Maria Thetis Nunes, José Otávio Melo).
História da Educação em Sergipe. Paz e Terra : Governo cio Estado de Sergipe / UFS, 1984.
Manuel Luís Azevedo d'Araújo, Educador de Ilustração, INEP, MEC, Brasília, 1984.
Sergipe Colonial I. Tempo Brasileiro / UFS. 1989.
Ocupação Territorial da Vila de Itabaiana. Separata dos Anais do VIII Simpósio dos Professores Universitários de História. São Paulo, 1976.
A Política Educacional de Pombal e sua repercussão no Brasil. Colónia. Separata dos Anais da II Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH), 1983.
Manoel Bomfim (1868/1932). Separata da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, n o 155, 1994.
O Poder Legislativo e a Sociedade Sergipana. Anais da XIV Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SPBH), 1994
As Câmaras Municipais, Sua atuação na Capital de Sergipe D'El Rey. Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH), 1995.
O Brasil Nação, de Manoel Bomfim, na Historiografia Brasileira. Separata dos Anais da XVII Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH), 1997.
A Contribuição de Felisbelo Freire à Historiografia Brasileira. Separata dos Anais da XVI Reunião da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica (SBPH), 1996.
Sergipe Colonial II. Tempo brasileiro, 1996.
Catálogo dos documentos avulsos da Capitania de Sergipe. (1619 – 1822). Arquivo Histórico Ultramarino, UFS, 1999.
Sergipe Provincial I. Tempo Brasileiro, 2000.
Sergipe Provincial II. Tempo Brasileiro, 2006.
FONTES CONSULTADAS;
Maria Nelly Santos. Professora Thétis: uma vida. Aracaju: Gráfica pontual, 1999.
A Historiografia de Maria Thétis Nunes. Anais da VII Semana de História.
Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e Brasileiro. Dicionário Biográfico.
Maria Thétis Nunes. http:/www.ihgb.org.br.
Maria Thetis Nunes. Entrevista a Glauco Vinicius e Raquel Almeida, infonet.
NOSSOS CABRAS – TEXTO DA GALERIA
MARIA THETIS NUNES
Silêncio, silêncio.... Ei você! Sim, você mesmo. Pronto! E por favor nada de tia, de Thétis, de senhora... De “marechal”... Me chamem de professora, simplesmente, “professora Thétis”. Naturalmente, naturalmente. É que eu fui a primeira professora catedrática do Atheneu e sua primeira diretora mulher. Que saudade do Atheneuzinho, ele funcionava bem aqui, neste prédio que hoje vocês conhecem como museu. Antes disso, fui aluna aqui, que anos bons! Era um período de grande desenvolvimento cultural, de granes professores. Naquele tempo era um colégio que só tinha homens e era considerado um lugar... Onde a moral não recomendava muito. Imagine, eu era vista como uma menina liberal! (risos) é que eu sou uma pioneira: fui uma das poucas sergipanas a frequentar um curso superior, na Bahia, uma bravura para uma garota naquela época. Também tive a sorte de poder viajar muito e me abastecer de cultura.
Fui a Portugal, morei em Buenos aires, conheci a África, a Ásia, a Europa... Fora da sala de aula, sempre detestei ficar parada. Só em paris eu estive 14 vezes: aproveitei muito! Que fique bem claro que nunca fui casada, mas tive alguns namorados sim. É que eu sou de um tempo que a mulher tinha obrigação de ser submissa. Os homens temiam as intelectuais, por medo de serem ofuscados e terem a autoridade ameaçada. [Mas ao contrário das feministas, sempre gostei e admirei os homens]...agora repitam comigo: Todo o homem e toda mulher têm os mesmos direitos. Muito bem! Naturalmente, naturalmente!
Sugestão de Leitura
SANTOS, Maria Nely. Professora Thetis: Uma vida. Aracaju/SE: Gráfica Pontual, 1999.
Anexos
-
Maria Thetis

