Documento
Metadados
Descrição
Arthur Bispo do Rosário foi negro, pobre e nordestino. Muito jovem, partiu de sua cidade natal, Japaratuba, no interior do estado de Sergipe onde nascera em 1909, e para onde jamais retornou para ingressar, em 1925, na Marinha. Foi boxeador e biscateiro. Entre 1933 e 1937, trabalhou no Departamento de Tração de Bondes, na cidade do Rio de Janeiro. Por fim, como empregado doméstico da família Leone, no bairro carioca do Botafogo.
Às vésperas do Natal de 1938, Bispo, guiado por imagens e vozes, se apresentou no Mosteiro de São Bento como um enviado de Deus com a missão de julgar os vivos e os mortos e recriar o mundo para o Dia do Juízo Final. Foi então levado pela Polícia Civil para o manicômio da Praia Vermelha, o Hospital Nacional dos Alienados, onde foi recebido como indigente e diagnosticado como esquizofrênico-paranoico. No início de 1939, foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá.
Entre as décadas de 40 e 60, transitou entre instituições psiquiátricas e as casas dos Leone. Homem de poucas palavras, dedicava-se à sua criação com muita discrição, motivo pelo qual as pessoas ao seu redor levaram algum tempo para descobrir que nos quartos-cela ocupados por ele, um manto e um novo mundo estava em gestação. Perto dos seus 50 anos de idade, Bispo se fixou, para sempre, na Colónia Juliano Moreira. No hospício, conquistou o status que jamais teve na sociedade: não enfrentava a fila do refeitório, não fazia a higiene pessoal junto com os outros internos; vivia em seu aposento regendo um novo mundo com as mãos.
Bispo assistiu ao desenvolvimento da história do tratamento psiquiátrico no Brasil. Foi vítima de algumas sessões de eletrochoque. Escapou da lobotomia, cirurgia que seccionava as fibras nervosas que ligam os lobos frontais às partes subjacentes do cérebro, com o objetivo de obter o alívio das desordens mentais e cujas vítimas se tornavam autômatos. Também resistiu ao tratamento com neurolépticos, medicamentos para reduzir ou anular as manifestações delirantes e as expressões motoras que as acompanhavam, e jamais se submeteu à praxisterapia.
O ano de 1980 marca o fim do anonimato de Arthur Bispo do Rosário. Ele foi apresentado ao Brasil pelo programa Fantástico, da TV Globo, e protagonizou o documentário O Prisioneiro da Passagem Arthur Bispo do Rosário, do psicanalista e fotógrafo Hugo Denizart. Personalidades, artistas, muita gente passou a ir à Colônia na intenção de conhecer sua obra.
Em 1982, expôs, pela primeira vez, parte de sua obra na mostra Margem da Vida, no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, ao lado de outros pacientes psiquiátricos, presidiários, menores infratores e idosos. O crítico Frederico Morais, então coordenador de artes deste Museu, legitimou-o como artista genuíno e sua obra como vanguardista. Ainda nos anos 80, a Colónia Juliano Moreira abriu suas portas e muitos internos partiram. Bispo aproveitou o êxodo e passou a ocupar dez celas com suas obras, afinal, muitos sacos de estopa haviam sido bordados, muitas miniaturas talhadas na madeira e envolvidas nas linhas azuis desfiadas dos uniformes manicomiais, quantas canecas de alumínio e talheres provenientes do refeitório ganharam vida nova, tantos objetos foram reunidos e transformados em objetos de arte. Sua missão exigiu muito trabalho: de 10 a 16 horas por dia; um processo de criação incessante e que só terminou com o fim de sua vida, no dia 5 julho de 1989.
A obra por si só
A história de vida de Bispo é cheia de imprecisões e espaços em branco. Mas isso não chega a ser um problema, pois não é a biografia de Bispo que explica sua obra, muito pelo contrário, é a obra que tende a preencher os espaços em branco, o passado omitido por Bispo.
Não é possível estabelecermos qual é a obra inaugural da produção artística de Bispo nem qualquer ordem ou fases de seu desenvolvimento. Ele fazia vários objetos simultaneamente; não datava nem os assinava. Sua veia artística se manifestou antes do diagnóstico de esquizofrênico paranoide; não foi, portanto, a loucura que o tornou artista embora a condição de isolamento, silenciamento e ociosidade imposta pelo internamento tenha contribuído com o seu processo de criação.
Toda sua obra consistia numa missão: recriar o mundo para o Dia do Juízo Final, portanto, para o dia da passagem que o levaria ao encontro com a morte. Paradoxalmente, Bispo, ao se preparar para a morte, recriava um mundo e reinventava sua vida. Enquanto muitos pacientes do sistema psiquiátrico optaram em abreviar suas vidas cometendo o suicídio, a arte salvou a de Bispo. Ele tinha consciência da importância de sua missão. Chegou a afirmar que, devido a ela, um dia ele seria reconhecido. O inventário do conjunto de sua Obra é constituído de mais de 804 peças. Esse número foi alterado com a descoberta de novas obras durante o trabalho de restauração para a Bienal de São Paulo.
Bispo não desenhou, não pintou nem esculpiu. Nenhuma dessas atividades expressivas tradicionais das "belas-artes" foi utilizada por ele. Mas bordou, costurou, pregou, colou, talhou ou simplesmente compôs a partir da apropriação de objetos já prontos, portanto; em total sintonia com as proposições artísticas mais radicais do século XX: Marcel Duchamp, o Novo Realismo, a Pop arte, a arte conceitual, Hélio Oiticica, entre outros. A contemporaneidade de sua obra é incontestável. Nasceram das coisas que recolhia pelo "quintal" do hospício ou que adquiria no mercado negro dali. Na sua maioria, objetos, detritos, sucatas de toda espécie e em inúmeras combinações: seja a partir da natureza do material e do efeito das cores como, por exemplo, sua vitrine Cestas e Canecas coloridas, assemblage de várias canecas; seja a partir da função dos objetos como em Sapateira Masculina. Algumas obras, como Talcos e Super-Cid, Botas, Congas e Havaianas, nos permite conhecer a história da cultura material do Brasil daqueles anos.
Cadeira e Correntes é uma obra cujo processo de criação é análogo à Roda da Fortuna. Bispo apropriou-se de dois objetos industriais, deslocou-os de seu uso cotidiano e reconfigurou-se. Sua atitude é análoga à que deu origem aos rea-dy-mades, de Marcel Ducharnp, e que, definitivamente, aproximou a arte da vida ordinária. Todavia, isso não torna Cadeiras e Correntes um ready-made: há a interferência do saber artesanal do artista na parte inferior da cadeira e um significado simbólico que escapa ao nosso conhecimento. Várias obras de Bispo expostas na 30ª Bienal de São Paulo são provas de que, durante todo o tempo em que viveu como paciente de instituições psiquiátricas, Bispo manteve contato, nada superficial, com o que chamamos de realidade. É o caso das várias faixas de miss, objetos que, à semelhança de outras (como fichários e dicionários de nomes) apresentam nomes bordados, têm um caráter de listagem, uma das características de sua obra. Cada faixa é dedicada a um país ou a um estado do Brasil.
No exterior e no interior das faixas, foram bordados nomes das principais cidades de vários países ou de estados brasileiros; esses trabalhos são uma espécie de representação geográfica do mundo. Mundo que Bispo se mantinha informado por meio da leitura das revistas O Cruzeiro e Manchete. Ele acompanhou a história do regime militar no País, os campeonatos de boxe e os feitos do campeão Éder Jofre, os principais acontecimentos internacionais como a invasão soviética no território do Afeganistão e os concursos de miss e registrou na sua obra o nome daquelas que se tornaram ícones da beleza e de uma época como a Miss Brasil Martha Rocha e a Miss Universo Ieda Maria Vargas.
A Cama de Romeu e Julieta foi planejada para a encenação da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare - Bispo, no papel de Romeu e Rosângela Maria, a estagiária de Psicologia e por quem o artista tinha grande afeição, no de Julieta. Mais do que um leito nupcial; esta obra é um leito de morte, lugar onde os personagens de Shakespeare cairiam num sono ambíguo, misto de morte passageira e sono eterno. O leito é a urna funerária que abriga a morte passageira de todas as noites. É também "cavidade" coberta, semelhante ao túmulo e ao ventre materno, lugar para se aconchegar e para morrer. A Cama de Romeu e Julieta é peça fundamental no conjunto da obra de Bispo, uma poética destinada ao momento da passagem.
Diferente da maioria dos trabalhos bordados, o Manto da Apresentação é caracterizado por uma rica gama de cores. As mãos de Bispo trazem a memória dos movimentos das mãos das bordadeiras de sua cidade natal, Japaratuba, cidade que no passado foi conhecida pela qualidade de seus bordados. Esse manto foi realizado para cobrir o corpo de Bispo no dia da sua passagem. Ele é constituído de um sistema simbólico muito complexo, pois nasceu da confluência de elementos da religiosidade católica, da cultura afro e da liberdade carnavalesca pagã, ou seja, dos fragmentos das tradições culturais herdadas pelo artista.
O manto é também ressonância e recriação de elementos das festividades religiosas e populares brasileiras, nas quais o negro, num momento de êxtase festivo, é coroado e cortejado como rei dos reis; momento de inversão de valores e de condição social, abolição do passado, afrouxamento de sinos movimentos do corpo que dança. Tal qual os Parangolés, de Hélio Oiticica, a estrutura da obra é o próprio ato expressivo, e este se produzia à medida que a obra (no caso, o Manto) era utilizada. Todavia, com os Parangolés, Oiticica realizou a desmaterialização do objeto de arte, criou um não objeto.
O manto de Bispo é um não objeto que, em razão do seu grau de inventividade, é tomado como objeto de arte. Em Parangolés é a arte que enriquece a vida; com o manto, a vida é transformada em arte. Obra maior e mais impactante de Bispo, o Manto da a apresentação é também exemplo maior da cultura brasileira: multicultural e alicerçada em apoios material e visuais de grande impacto sensorial devido à somada cultura cristã portuguesa e indígena com aquela dos negros, particularmente bantos. Essas marcas culturais em nada comprometam a contemporaneidade do conjunto da obra de Arthur Bispo do Rosário. Não é o seu caráter místico-religioso nem suas cores locais que marcam a singularidade e a contemporaneidade do artista Bispo do Rosário, mas, sim, o trabalho de apropriação e recriação que torna o particular universal.
Site Consultado
🖰 Disponível em: https://museubispodorosario.com/arthur-bispo-do-rosario/.
NOSSOS CABRAS - TEXTO DA GALERIA
ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO
Japaratuba, Aracaju, Itabaiana, Porto da Folha, Canindé, Estância, Simão Dias, Lagarto, Aquidabã .
De que cor você vê minha aura? É, de que cor você me vê hoje? (pausa) Nenhuma? Você ainda não vê a milha alma, mas um dia você vai ver. Você sabe com quem está falando? (calmo) Você sabe que lugar é este? Não, você não sabe. (se animando) Vem! Vem que vou te mostrar o mundo que construí ! (ri desvairado)Sabia? Eu sou como um beija—flor, nunca pouso, estou a dois metros do chão. E eu sou uma pessoa divina! Eu sou o Bispo de Jesus !
Já fui sinaleiro e timoneiro. Fui campeão de xadrez e campeão de boxe. Xadrez, boxe, natação, corrida, caminhada, atletismo, golfe, futebol , basquete ...!
Uma vez fiquei três meses preso numa solitária. Daí eles abriram uma porta, mandaram sair, mas eu não quis... fiquei cinquenta anos na Colônia Juliano Moreira costurando minha obra com a linha azul que eu tirava do meu uniforme e bordava no lençol. Mas eu não faço isso para os homens não: eu faço, é para Deus! Desde o dia que uma voz me disse que estava na hora de eu começar a reconstruir o mundo. O senhor me deu a missão de representar o que havia na terra para o dia do juízo final! Eu preciso inventariar tudo que valha a pena sal var, Uma obra tão importante que levou 1986 anos para ser escrita. Este é o significado da minha vida. E essa é a minha biografia.
Sabia? Eu já fui transparente e às vezes, quando deixo de trabalhar, fico transparente de novo. Mas normalmente sou cheio de cores.
E agora, como é que você me vê? Conseguiu ver a cor da minha alma? Ana, Teresa, Maria, Sorava, Milena, Manuela, Joana, Roberta, Veronica, Fabiana, Cristina, Paula, Viviana.
Sugestão de Leitura
HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosario: O Senhor do Labirinto. 2ª Edição [revista e ampliada]. Rio de Janeiro: Rocco, 2011. 208p.
Anexos
-
Artur Bispo do Rosário Mix v4

