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O que há em determinadas expressões, que diretamente nos leva para as mais duras condições humanas? Estaríamos ancorando nosso amor pelo belo em uma mórbida atração pelo trágico? Essa nossa misteriosa pulsão ganha a forma de fios azuis pelas mãos de Arthur, um sergipano. Não fosse o seu fazer excepcional, tudo indicava que ele não escaparia da indigência social. O salto para o alto foi adiado até que a partida já se avizinhava: morreu pobre, doente e jejuando no abandono manicomial, em meio à celebridade tardia, comparado a ícones do mundo da grande arte.
Não faltaram interlocutores que traduzissem em palavras bem elaboradas seu profundo sentimento de fé religiosa, exposto em um trançado urgente.
De fato, há indivíduos que se expressam convulsivamente — é uma questão vital! O resultado desse surto ético é uma exuberante forma estética, que mistura folguedos e bordados. Essa estranha beleza nos obriga a olhar para lugares sobre os quais jamais pensaríamos em pousar os olhos, nos arranca da banalidade cotidiana e nos carrega consigo.
Talvez a resposta para esse mistério esteja nas tramas que seu feitiço exerce sobre nós, à medida em que um Arthur qualquer se atreve habilmente a se lançar muito além e acima de nossas certezas mais triviais. Essa alteridade radical nos fascina e amedronta, nos convoca a desembaraçar esses fios, a nos ocupar dessa decifração... E, assim, de um modo sutil e persistente, Arthur resiste ao silenciamento que lhe foi imposto em vida e ainda perdura. Ele costurou memórias à uma obra de fé, àquilo que chamamos de obra de arte e que para nós continua sendo uma tarefa infinita.
Solange de Oliveira, curadora
Sugestão de Leitura
OLIVEIRA, Solange de. Arthur Bispo do Rosario: Arte por um fio. São Paulo/SP: Estação Liberdade, 2022. 384 p.
