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1. Origens Históricas
A feira é um fenômeno sociocultural e um espaço econômico historicamente encontrado desde as primeiras sociedades organizadas. Na Antiguidade, era comum a reunião de produtores que levavam o excedente da produção para determinados espaços onde estabeleciam relações de troca que evoluíram para a mercantilização. Na Babilônia, nas cidades-estados da Fenícia e da Grécia e no mundo romano, as feiras, não raro, atraiam a população em busca de artigos para o atendimento de suas necessidades (ALMEIDA, 2009).
No medievo, os árabes, notadamente, tornaram as feiras espaços importantes para a efetivação do domínio nas áreas por eles conquistadas, e, o retorno dos cruzados à Europa acabou por estabelecer rotas comerciais entre o Oriente e o Ocidente, despertando um novo momento nas relações comerciais.
Assim, a fechada Europa feudal, foi gradativamente saindo de seus encastelados muros para conviver com espaços onde os mercadores apresentavam os seus produtos, em concentrações chamadas de burgos, que, ampliados, deram origem a muitas cidades.
Inicialmente as feiras desenvolviam atividades comerciais entre os locais. Entretanto, com o crescimento populacional nos burgos, elas se tornaram espaços de negócios, recebendo e comercializando produtos de diferentes regiões da Europa, África e Ásia, o que permitiu o renascimento do comércio, inaugurando a era capitalista.
Na América, embora tenha-se conhecimento da existência de feiras entre os astecas, as práticas comerciais em espaços estratégicos nas povoações, foram introduzidas pelos ibéricos e, no Brasil, a chegada dos portugueses assegurou que a tradição se espalhasse na Colônia.
Dessa forma, as feiras livres, ampliaram, ao longo de suas existências sua função inicial de simples espaço de comercialização, compra e venda de produtos, tornando-se espaços educativos e culturais não formais de aprendizagem. Assim, as feiras devem ser compreendidas como espaços privilegiados de educação popular e de produção cultural (DALENOGARE e ALBERTI, 2011), onde os seus operadores criam, recriam e disseminam, rotineiramente, diferentes saberes.
2. As Grandes Feiras de Sergipe
Assim como no restante do Brasil, as feiras foram responsáveis pelo surgimento de freguesias e vilas que mais tarde originaram várias cidades, adquirindo concomitante ao seu crescimento, várias outras funções.
Das feiras de Sergipe, duas destacam-se especialmente: a de Itabaiana, no Agreste e a de Nossa Senhora da Glória, porta de entrada do Sertão, que chamam a atenção não só por seu tamanho, mas fundamentalmente por sua importância econômica, tanto para o território regional como para o Estado.
A feira de Itabaiana é considerada a maior ao ar livre do interior sergipano, ponto de abastecimento das cidades do entorno e até mesmo da capital. Realizada no sábado, era originalmente instalada, a partir da década de 80 do século XIX, na praça da Matriz . Mas com o crescimento dos negócios e do número de feirantes, foi transferida, em 1928, para a área onde atualmente é montada, no largo Santo Antônio.
Em 1954, o intenso movimento da feira, determinou a sua realização também na quarta-feira e posteriormente, a criação de um novo espaço complementar, o largo José do Prado Franco, para atender a demanda de ampliação do comércio. Entretanto, os limites da feira avançam, ao longo dos anos, para as ruas do entorno dos largos, por onde se estende setores específicos dos ramos de confecção, utensílios domésticos, brinquedos, entre outros.
Tão famosos quanto a feira, são os seus feirantes, a exemplo de Wilson do Pastel, Zé do Dicurí e Baixinho da Macaxeira, Mané Corró, Manué de Tonho de Anjinho, Rosinha do Ralo, vendedores de carnes, farinhas, queijos, legumes e utensílios domésticos. Ainda é possível encontrar os descendentes dos “ferreiros” das Flechas, tradicionais fabricantes de machados, enxadas, foices, facas, trempes e brides para animais, históricos feirantes.
Diante de sua importância, a Assembleia Legislativa, reconheceu a feira de Itabaiana “Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe” através da Lei nº 8.561/2019, considerando a sua relevância no desenvolvimento da economia local e estadual, além de ser um espaço cultural de fortalecimento da relação interpessoal.
Igualmente, em Nossa Senhora da Glória, a feira exerce o papel aglutinador da intensa comercialização na cidade considerada “capital do Sertão”. Paralelo ao desenvolvimento da pecuária de leite, e do natural processo de ocupação espacial, a feira se tornou um ambiente importante de convergência dos feirantes e viajantes de diversas regiões do Estado.
Realizada aos sábados, a feira livre atrai consumidores dos seus produtos mais destacados como o queijo, manteiga, frutas, cereais e farinhas.
As bancas com os diferentes produtos sãos dispostas ao longo das ruas do entorno do Mercado de Talho de Carne, chegando a ocupar as calçadas onde feirantes e consumidores se espremem no frenesi da feira. Alguns caminham lentamente, observando os produtos a serem comprados, parando para conversar com outros fregueses e feirantes, outros parecem já ter traçado sua trajetória caminhando rapidamente.
3. Caracterização da Instalação
Instalação de longa duração, tem por objetivo retratar as feiras livres do estado de Sergipe, destacando seus personagens, produtos e cenários, considerando que a feira, além de ser um espaço de comercialização, é também um ambiente de socialização onde a comunidade circula para compra e venda de produtos.
Representando todos os feirantes, o Josevende , um típico vendedor das nossas feiras, interage com o visitante em um diálogo bem-humorado e agradável.
Em Josevende/Nossas Feiras, são apresentados itens representativos da cultura, a exemplo: da peneira (arupemba), da cachaça, das bolinhas de gude (conhecidas em Sergipe por marraia, marraite e chimbra), do pião, da moringa, da vassoura de palha (pindoba), das panelas de barro, da rede de pesca (jereré).
O artesanato em madeira também é destacado na instalação. Diversificado e consagrado pelos mestres desse ofício, como Véio, de Nossa Senhora da Glória, Tonho, de Poço Redondo, e Manuel de Maroto, de Tomar do Geru, são representados para conhecimento do público.
De Santana do São Francisco veio a cerâmica apresentada nos estilos tradicional e contemporâneo, uma importante fonte de renda, consumida tanto sob a forma de objetos decorativos e representação de santos, como de utensílios domésticos como panelas, moringas e porrões, amplamente utilizados principalmente no interior de Estado.
Integra ainda o acervo da instalação os brinquedos de design popular, criativo e eficiente, usando vários suportes, como veículos, bonecas, fantoches, cangaceiros, violeiros, vaqueiros, instrumentos musicais, miniaturas de animais, mobiliário, petecas, piões, carro-de-boi, manés-gostosos, trata-se de uma linha de brinquedos simples, imaginosos e baratos.
Outra tradição cultural destacada em Josevende/Nossas Feiras são as bonecas de pano. Reconhecidamente uma das mais antigas atividades artesanais de Sergipe e, em especial, do município de Nossa Senhora das Dores, onde são confeccionadas por grupos de idosas. Variadas, seja na cor, no tamanho ou no que representam, as bonecas de pano, geralmente representam figuras da cultura local a exemplo de Maria Bonita.
Há ainda outras peças de palha, madeira, metal, louça e tecido características das nossas feiras, amplamente consumidas em todo Estado.
FONTES REFERENCIAIS:
🕮 ALMEIDA, Shirley Patrícia Nogueira de Castro e. Fazendo a feira: estudo das artes de dizer, nutrir e fazer etnomatemático de feirantes e fregueses da Feira Livre do Bairro Major Prates em Montes Claros - MG. 2009. 135f. Dissertação (Mestrado em Educação). Universidade de Montes Claros. Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social. Montes Claros-MG, 2009. Disponível em: http://www2.fe.usp.br/~etnomat/teses/fazendo-a-feira.pdf. Acesso: 23.mai.2020.
🕮 DALENOGARE:, Vanessa; ALBERTI, Dirceu Luiz. Educação popular: saberes entrelaçados. Vivências: Revista Eletrônica de Extensão da URI, Erechim, Rio Grande do Sul, v.7, n.12, p. 1-8, maio.2011. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/326053121. Acesso: 23.mai.2020.
🖰 SITES CONSULTADOS:
https://www.google.com.
https://infonet.com.br/blogs/feira-de-itabaiana-se-em-se-plantando-tudo-da/
https://93noticias.com.br/noticia/46861/passeio-na-feira-de-itabaiana.
SUGESTÃO DE LEITURA:
🕮 Feira Popular: Patrimônio Histórico e Cultural de Sergipe. pp. 20-23. In: CARDOSO, Amâncio. Sergipe: Um Roteiro Turístico e histórico e Cultural. Aracaju: Artner Comunicação, 2021. 134p.

